quarta-feira, 2 de março de 2011

Toquinho do Ícaro ...

Falar sobre meu pai era um tabu. Me sentia injustiçada por conhecê-lo através das histórias de amigos e  família. Minha opinião sempre foi baesada nos outros, e isso doeu por muito tempo.
Quando minha mãe falou que meu pai havia falecido, um buraco se abriu. Pensava o que seria de mim sem os fins de semana ao lado do cara que eu simplesmente achava um máximo. Quando a manhã de sábado abria aquele sol sabia que iríamos ao Tênis Clube (até hoje, os sábados tem um sabor diferente). Quem escreveria as letras do Tom, Chico, Djavan e Milton para que eu decorasse as músicas durante a semana?! Quem me chamaria de Toquinho e me olharia com aquela carinha tão orgulhoso me vendo desenhar em sua mesa?! Os momentos com meu pai são inesquecíveis! Lembro de cada fim de semana que passamos juntos! Sua lasanha, nossos banhos cantantes, nossas ligações, seus roncos, quando jogávamos buraco e quando ia ao trabalho dele.
Durante muito tempo idolatrei meu pai. Lembro que após durante uma semana ligava na casa dele chorando porque tinha esperança dele atender. Cada móvel, prato, foto, qualquer lembrança valia ouro. Ouvia seus CDs incansavelmente. Tinha uma espécie de kit: quando pensava que esquecia sua voz ouvia uma fita que ele tinha gravado de um fim de semana; se o problema era lembrar do rosto recorria as fotos.
Em 2007, fiz uma tatuagem, e a partir daí que enxerguei o quanto fui tola. Nada daquilo traria meu pai. A melhor coisa que podia fazer a ele era aquela homenagem pequena nas minhas costas.
Lidar com a eterna ausência de uma pessoa tão importante na nossa vida é muito complicado, mas virei esta página apesar da demora. Vi que mesmo convivendo tão pouco com meu pai, tenho partes dele em mim, como minha paixão por MPB, a gosto de escrever e tantas outras que quero passar para a Helena e dizer a ela que quem me ensinou foi o avô dela.
Jamais esquecerei do teu sorriso, tua voz e teu cheiro pai. Te amo!

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